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sábado, julho 10

IMIGRANTES/EMIGRANTES

Abaixo, a intervenção da nossa diretora Renata Silveira no painel "Imigrante/Emigrante", mediado pelo coordenador do PAECPES, Edmundo Martinho. Da mesa fizeram parte ainda o delegado Regional do SEF de Viseu, Inspector Duarte Castro, o representante da Embaixada da Ucrânia, Cônsul Anatoliy Koval, o representante da Embaixada de Moçambique, Cônsul Carlos Manhiça e ainda Filipa Pinho, representante do Observatorio da Emigração e Filipa Dias, representante do CLAI de Viseu. O evento foi realizado pela Caritas/CLAI de Viseu, no passado dia 8 de Julho, no Teatro Viriato, em Viseu, no âmbito do Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social.

fotografias cedidas pelo CLAI Viseu


Boa tarde a todos os presentes,
Boa tarde aos exmos senhores que compõem esta mesa de trabalho neste encontro...

Gostaria de agradecer a oportunidade de estarmos presentes aqui hoje, num momento que consideramos importante na construção do diálogo, da cidadania, da solidariedade e da integração não só para as comunidades migrantes mas, essencialmente, para a comunidade a que passamos a fazer parte desde o momento em que decidimos partir em busca de novas oportunidades sociais, económicas e, por que não, culturais.

Agradecemos à Caritas de Viseu e ao CLAI de Viseu, na pessoa da Filipa Dias, pelo convite à nossa associação e reforçamos a nossa disponibilidade em estreitar os laços e a cooperação no atendimento ao imigrante, mais especificamente o imigrante brasileiro, mas não só.

A nossa associação já conta com mais de cinco anos de actividades e, embora estejamos sedeados no coração do Porto, somos uma associação de caráter regional, com associados em todo o Norte e Nordeste de Portugal, de Aveiro a Vila Real.

Estarmos hoje aqui em Viseu é, em certo sentido, ampliarmos o nosso horizonte. É superarmos a nossa “limitação regional” para lançarmos um olhar às zonas mais interiores e centrais de Portugal, onde os imigrantes estão presentes, mas onde nem sempre há organização ou movimento associativista para apoiá-los.

Neste sentido, louvamos os esforços do ACIDI, reflectidos nos inúmeros CNAIs e CLAIs espalhados pelo país, onde os brasileiros e imigrantes de outras nacionalidades têm recorrido, com sucesso, à procura de informação, aconselhamento e encaminhamento.

Eu mesma, em 2006, quando fui demitida por estar grávida, encontrei no CNAI do Porto toda o apoio e a orientação de como proceder de forma a assegurar todos os meus direitos. Desde as denúncias ao ACT (na altura IGT) até às questões relacionadas com a Segurança Social e a renovação do meu Visto de Residência.

No entanto, entendemos que há questões diárias relativas à integração dos imigrantes que são pertinentes mesmo às associações de imigrantes e este trabalho, em parceria com os CLAI e CNAI, é essencial para a integração efectiva destes indivíduos na sociedade portuguesa. É preciso fomentar e apoiar este movimento associativista.

Da mesma forma que, tradicionalmente, as comunidades emigrantes portuguesas desenvolveram e desenvolvem redes de apoio e acolhimento nos inúmeros países onde se encontram. São redes vitais para minimizar o que poderíamos chamar de “efeitos colaterais” das migrações: trabalho precário, exploração ilegal de mão de obra, tráfico de seres humanos, enfim, uma série de problemas que quem está, de alguma forma, habituado a trabalhar com migrantes costuma saber/presenciar.

Já o fenómeno da emigração brasileira é pouco representativo no universo dos quase 200 milhões de habitantes do nosso país. Somos actualmente pouco mais de 3 milhões vivendo fora do Brasil, segundo estimativas do Ministério Brasileiro das Relações Exteriores.

No entanto, em Portugal já somos a quinta maior comunidade brasileira fora do nosso país, apenas atrás de EUA, Reino Unido, Paraguai e Japão. Mas ainda somos poucos para despertar o real interesse do nosso Estado pela nossa causa. E não temos experiência histórica relevante no que refere ao associativismo imigrante pelo mundo. Por isso, acreditamos que o papel das associações, em parceria com as instituições portuguesas, seja vital no apoio ao nosso imigrante em busca de cidadania. Refiro aqui cidadania como um conceito bem mais abrangente que o da nacionalidade e que implica uma real integração na sociedade e cultura de um país.

Bem, as temáticas sobre imigração/emigração inspiram um vasto campo de ideias e matérias. No entanto, é no âmbito da pobreza e da exclusão social, que somos chamados a reflectir neste encontro.

Este é um tema da actualidade, quando a crise despoletada no final de 2008 parece atingir o seu auge e não dá indicações de abrandamentos e que tem preocupado seriamente os governos e instituições europeias, daí que a dedicação deste ano ao combate à exclusão social e a pobreza pretenda, de algum modo prático, a criação de planos de acção e trabalho no sentido de travarmos esta violência social, muitas vezes invisível, mas que em tempos de crise tem se evidenciado e assumido a sua face mais dura.

Neste jogo económico que envolve insolvências, falências e incumprimentos, para além da sociedade portuguesa que se vê refém destes desequilíbrios socio-económicos, as populações migrantes em geral são de alguma forma as mais fragilizadas. Muitas vezes por estes trabalhadores ocuparem os postos de trabalho precários e temporários, são os primeiros a sentirem na pele as consequencias da chamada “crise”.

E os números da crise fazem a “sensação dos media” todos os dias. Esta semana foram publicados dados relativos ao desemprego em Portugal. Dados que nos preocupam enquanto associação de imigrantes. Sendo a comunidade brasileira a mais numerosa comunidade imigrante em Portugal, com mais de 106 mil residentes legais, segundo dados recentes do SEF, é esta também a comunidade mais atingida pelo desemprego, representando cerca de 33% dos pedidos de subsídio deferidos pelo Estado português para cidadãos estrangeiros.

No entanto, mais do que questões pontuais de interesse das comunidades imigrantes, entendemos ser um dever cívico intervir comunitariamente para a redução das desigualdades sociais e de oportunidades, não apenas para os nossos associados imigrantes, mas para a sociedade portuguesa da qual somos parte.

Um estudo recente, realizado pelo Instituto Piaget, revela que metade dos imigrantes em Portugal pretendem obter a nacionalidade. O que os liga afectiva e efectivamente a este país. É neste imigrante que nos concentramos acima de tudo. Queremos ajudá-lo a integra-se na cultura e na sociedade portuguesa, sem perder a sua identidade brasileira. Lutamos pela integração mas sem aculturação.

Na Associação Mais Brasil, trabalhamos ainda focados na desmitificação dos estereótipos, mais especificamente dos que surgem do desconhecimento e má interpretação da imagem da mulher latino-americana, e principalmente da mulher brasileira. Temos algumas investigadoras que têm trazido o contributo dos seus estudos para a nossa prática diária no atendimento ao imigrante, na área da igualdade de género e imigração.

Temos, inclusive, alguns projectos em curso que pretendem trabalhar objectivamente na desconstrução destes estereótipos, dotando as nossas imigrantes de ferramentas adequadas – desde a apresentação de um currículo e entrevista de emprego, até nas análises das entrelinhas e interditos das condutas que podem ser consideradas “agressivas” ou “vulgares”, segundo a cultura portuguesa.

Como disse antes, não queremos que os brasileiros percam a espontaneidade que tanto os caracteriza enquanto povo, mas queremos principalmente adequar as “nuances” da nossa cultura às “normas culturais e sociais” portuguesas, reduzindo cada vez mais o “choque de culturas” e promovendo maior integração e igualdade de oportunidades.

Para concluir, sabemos que a exclusão social não tem nacionalidade, não obedece fronteiras, não distingue raça ou credo. É um fenómeno mundial, com maior repercussão em alguns países que noutros, no entanto estará sempre presente e esta luta precisa ser travada para além das fronteiras de língua e nacionalidade.

quinta-feira, maio 27

Já viu histórias destas?!

Uma reportagem do UOl, para ler e identifica-se... Ou não!

Nós, na Mais Brasil, lutamos diariamente pela inclusão social dos nossos imigrantes na cultura portuguesa. O caminho nem sempre é fácil, mas aprendemos diariamente, com os "casos de vida" que nos chegam, que vale à pena lutar por mais igualdade, direitos e cidadania!

PRECONCEITO EM PORTUGAL
Por Fernando Moura (especial para o UOL em Lisboa)


"A discriminação em Portugal é um fato", diz energicamente Paula Toste quando questionada pelo UOL sobre a forma como foi tratada quando viveu na capital portuguesa Lisboa por duas vezes.

"Sentia a discriminação pelo sotaque, era começar a falar que já olhavam de outra maneira. O fato de eu ser do Brasil era pior devido à péssima fama das brasileiras que vão para a Europa se prostituir."

Como Paula, outras mulheres brasileiras que decidem emigrar para Portugal queixam-se cada vez mais de discriminação e do preconceito por parte dos portugueses em diferentes momentos da sua vida, mas principalmente na hora de arranjar casa para morar.

Mas o UOL apurou também que elas sofrem ainda insultos ou diferenciação salarial no trabalho, abusos de autoridade das forças de segurança e incorreto atendimento nos serviços públicos pelas situações do cotidiano. Estes fatos são os que mais queixas de discriminação racial geram neste país da Europa.

Um estudo apresentado em julho de 2007 pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), intitulado "Imigração Brasileira em Portugal" e coordenada pelo professor Jorge Malheiros, revelou que o 45,3% dos entrevistados consideram ter visto "bastantes" casos de discriminação da parte dos portugueses em relação aos brasileiros. Considerando conjuntamente os que assinalam "bastantes" casos e "alguns" casos, esse número sobe para 71,9%.

Apenas 19,3% dos entrevistados disseram nunca ter visto "nenhuma" situação dessas. Além disso, o relatório revela que 34,5% dos brasileiros entrevistados declararam ter tido conflitos com cidadãos portugueses pelo fato de serem brasileiros, mas 65,3% afirmam nunca ter tido esse problema.

A pesquisa ouviu 400 brasileiros que vivem em Portugal, sendo 255 homens e 145 mulheres. O levantamento foi feito a partir de entrevistas diretas, pessoais, que duraram cerca de 25 minutos e foram realizadas na residência dos entrevistados ou em locais públicos, de acordo com um questionário previamente elaborado.

Paula é luso-descendente. Nasceu no Rio de Janeiro e nos últimos anos esteve por duas vezes vivendo em Portugal, "uma porque ganhei uma bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) português; outra, a procura de uma nova experiência profissional", conta ela, que diz se sentir à vontade para comentar o assunto pelo fato de a sua origem ser portuguesa, o que reforça o seu desgosto. "O meu pai emigrou dos Açores para o Brasil".

Sensivelmente magoada pela sua experiência européia, ela diz que trabalhou 9 meses em uma dependência do MNE e foi bem recebida, mas não se cansa de afirmar que a discriminação em Portugal existe e é visível, sobretudo para os imigrantes que não estão legais.

Paula, que é graduada em Comunicação Social por uma universidade do Rio de Janeiro, diz que não quer voltar mais ao país. "Portugal para mim só de passeio para matar as saudades dos familiares e amigos, que vivem nas Ilhas dos Açores. Viver ali novamente, nem pensar! Só voltaria a morar em Portugal se por acaso estivesse trabalhando em uma empresa do Brasil e fosse transferida. Mesmo assim, só iria se eu não tivesse opção de escolha!"

Discriminação por telefone

"As brasileiras começam a ser discriminadas já quando telefonam para pedir informações sobre aluguel de apartamentos", conta Paula. "Uma amiga brasileira ligou perguntando o preço e a dona do apartamento disse que já tinha sido ocupado. Logo pediu para uma amiga portuguesa ligar e a mesma mulher disse o valor do aluguel e informou que ainda estava disponível. Ou seja, por causa do sotaque e percebendo que era brasileira foram negadas as informações."

Aline também imigrou do Rio de Janeiro.

Preferindo não divulgar o seu sobrenome, ela disse ao UOL que quando chegou a Aveiro, cidade no centro do país, procurou um apartamento para viver enquanto estudava. "Telefonei para várias pessoas.

Uma senhora me disse que não queria brasileiras no apartamento dela. Expliquei que estava na Universidade de Aveiro e ela falou que já tinha ouvido essa história antes e encerrou a conversa. Outra senhora me convidou para visitar o apartamento só para saber como eu era, pois já tinha negado a uma outra pela 'aparência duvidosa'."

Para esta estudante, o preconceito se torna mais agressivo por ser quase declarado. Mas ela ressalta que não é só com os brasileiros que isso ocorre. "Também discriminam mães solteiras, pessoas que vão morar junto sem se casar. São coisas já ultrapassadas em outros países e que em Portugal são ainda importantes."

Problema é pior na periferia

O ACIDI é um instituto público integrado na administração indireta do Estado, que tem como missão colaborar na concepção, execução e avaliação das políticas públicas relevantes para a integração dos imigrantes. O relatório do organismo sublima que os casos de "discriminação" estão se acentuando nos locais com maior concentração de imigrantes brasileiros, situados na periferia da capital portuguesa.

Em contrapartida, o espaço caracterizado pelo maior cosmopolitismo e pela freqüência mais elevada de contatos interétnicos - que seria a capital Lisboa - registra a maior porcentagem de respostas no conjunto das categorias "pouco e nenhum caso de discriminação" e claramente a menor na categoria "bastantes casos de discriminação".

No contexto da União Européia, um inquérito realizado pelo Observatório Europeu dos Fenômenos Racistas e Xenófobos, entre 2002 e 2005, a 1.619 imigrantes cabo-verdianos, guineenses, brasileiros e ucranianos residentes em Portugal revela que a maior taxa de discriminação se incidia na compra ou aluguel de um imóvel ou no pedido de um crédito bancário (42%) e no emprego (32%).

O último relatório de atividades da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) informa que, entre setembro de 2005 e dezembro de 2006, as grandes áreas de denúncias foram a laboral, forças de segurança e Estado, que representavam quase metade das 85 queixas apresentadas por particulares e associações.

Neste contexto, Manuel Correia, fundador da Frente Anti-Racista Portuguesa, alertou para as formas "sutis" de discriminação racial, que considera que têm grande peso.

"São formas de discriminação disfarçadas para diminuir o outro, mas nem sempre se pode provar que se está a discriminar", avalia.

Correia admite que se criam situações de "desencorajamento ao aluguel" de casas aos africanos e brasileiros, de "incorreto atendimento nos estabelecimentos públicos", a falta de promoção de carreiras, os baixos vencimentos e "as expressões injuriosas" das chefias no posto de trabalho e a "desproporcionalidade do uso da força da polícia junto da comunidade negra".

Flavia contou ao UOL que em uma das ligações que fez durante a procura de apartamento, uma senhora perguntou a ela de onde era. Quando disse que era do Brasil, a senhora falou que não alugava quartos a brasileiros. "Perguntei a ela o motivo e ela me disse: 'já tivemos experiência antes e sabemos como são os brasileiros. Gostam de pôr a música nas alturas e fazem bagunça'. As palavras dela apenas confirmaram o que eu já sabia."

A estudante disse que é difícil fazer comparações, mas pensando em experiências que teve em Lisboa e em Londres, na Inglaterra, percebe que a situação em Portugal é mesmo mais grave. "Em Londres, consegui arrumar um quarto no mesmo dia em que cheguei. Portugal é um país provinciano. A maioria da população é idosa e isso dificulta a negociação e vem se somar à barreira do preconceito que têm com brasileiros e com africanos. Ao final disto tudo, acabei por arranjar um quarto em uma casa que divido com outros brasileiros."

Ana Paula Bittencourt atualmente trabalha em uma clínica médica para poder custear o curso de mestrado em uma universidade de Lisboa. Ela diz que na chegada ao país foi mais difícil o convívio porque sentia muito as diferenças. "Agora já não ligo muito. Acho que o pior era uma certa desconfiança do que você está fazendo por aqui", diz ela.

A estudante diz que na primeira casa que alugou o dono mal falava com ela. "Só ficamos amigos depois que ele percebeu que eu não vim para cá para 'tentar a vida' [prostituir-se]. Quando saí de lá, o proprietário da casa onde moro atualmente comentou que se não tivéssemos um amigo em comum ele não alugaria a casa para uma brasileira."

A jovem que emigrou de Joaçaba (Santa Catarina) sente que a discriminação com os negros e imigrantes do leste europeu é muito maior que com brasileiros. "Tenho a idéia de que o pensamento aqui é que existem muitos brasileiros 'gente boa', que são simpáticos e trabalhadores. E trabalham naquilo que os portugueses não querem trabalhar. Mas com os negros isso não acontece. Nenhum se salva."

Conflito interno entre portugueses

Para o sociólogo carioca Marcos de Oliveira Gaspar - filho de um cidadão português emigrado para o Brasil na década de 1950 - e que chegou a Lisboa em maio de 2001 por meio de uma bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros Português (MNE), a discriminação com os brasileiros é um conflito interno entre os portugueses.
"Como pode um povo discriminar os brasileiros e participar de forma tão intensa de um festival como o Rock'n Rio/Lisboa, com diversos artistas brasileiros. Acho que os brasileiros entraram em um processo de discriminação que é um fenômeno europeu, em decorrência da globalização econômica que, por conseqüência, atrai cidadãos de outros continentes que sofrem com as freqüentes crises econômicas, políticas e sociais das últimas três décadas."

Gaspar estudou o fenômeno da imigração em uma universidade de Lisboa e afirma que na hora de alugar uma casa, os portugueses irão preferir sempre um cidadão português. "No Brasil também é mais fácil alugar uma casa para um brasileiro do que a um estrangeiro. Fica mais fácil de resolver a documentação e confiar. No meu caso, que aluguei um apartamento com um amigo argentino, acabei tendo a preferência em relação a uns italianos. Mas claro que o fato de os dois sermos filhos de portugueses ajudou."

Liliana é um exemplo de brasileira que nunca sentiu o preconceito por ser do Brasil, mas sim por ser simplesmente imigrante. Ela imigrou para Lisboa em 2002 e trabalha para um órgão do governo. "Eu me sinto discriminada por ser imigrante e não por se brasileira", afirma. "Como não posso ter Bilhete de Identidade, também não posso comprar uma casa ou pedir um empréstimo. Não posso nem ter cartão de descontos da Fnac porque não tenho documento português".

Mas o sociólogo diz acreditar que se não houvesse essa forte imigração para Portugal, os brasileiros continuariam sendo muito bem recebidos. "Como ocorreu até o final da década de 1980, coincidência ou não, o período que Portugal entra na Comunidade Européia e o Brasil vive sua pior crise econômica."


Portugal vive uma colonização cultura às avessas, diz sociólogo luso-brasileiro

O sociólogo Marcos Gaspar voltou ao Rio de Janeiro depois de viver quase um ano em Lisboa. Ele estudou o fenômeno da imigração em uma universidade de Lisboa e diz que a discriminação em Portugal ocorre principalmente com os brasileiros de etnia negra ou parda e com baixa escolaridade.

"A questão racial é o ponto mais sensível e em uma escala de discriminação dos portugueses, os primeiros são os cidadãos da comunidade africana de língua portuguesa (cabo-verdianos, angolanos, guineenses), a brasileira em seguida e, por último, as comunidades do leste europeu."

Para o sociólogo, a discriminação ou a xenofobia é um fenômeno de toda a Europa, mas em Portugal possui certas particularidades. "Não parece abranger toda a sua sociedade, mas não podemos esquecer que Portugal é um país pequeno com uma população de apenas 11 milhões. Considerando que se estima que 10% dos residentes sejam estrangeiros, o preconceito acaba ocorrendo como uma reação para a manutenção da identidade nacional ou local e dos próprios empregos."

Por outro lado, Gaspar alerta que não se pode descartar que o domínio da língua e uma certa semelhança entre as culturas facilitam a inserção dos brasileiros que conseguem facilmente se adaptar em Portugal. "O fato é que está ocorrendo neste país uma certa colonização cultural às avessas e isso parece começar a incomodar os portugueses".

"O sotaque brasileiro gera sentimentos distintos entre os portugueses", diz Gaspar. "Por um lado, adoram a cultura brasileira, a música, literatura, telenovelas, futebol, passar férias no nordeste do país, o bom humor, a alegria. Mas por outro, sentem-se incomodados com a grande presença de brasileiros em Portugal, pela disputa por empregos ou pelos problemas da prostituição e dos casos de contravenção, e ainda da clandestinidade."

Ministro português nega que brasileiros sejam discriminados

Em Portugal não há discriminação em relação aos cidadãos brasileiros, afirmou à Agência Lusa, em Brasília, o ministro português da Administração Interna, Rui Pereira, que comentava uma informação divulgada pelo portal UOL.

"Temos uma cultura que não introduz nenhum fator de xenofobia e favorecemos políticas de integração. Nós não praticamos qualquer discriminação em relação aos brasileiros. Portugal é um país com uma tradição profundamente humanista em matéria de migrações", garantiu Rui Pereira.

O ministro lembrou que Portugal ficou em segundo lugar, logo após a Suécia, em um recente estudo feito pela União Européia sobre os países que têm tido mais sucesso na integração de imigrantes.

A pesquisa levava em consideração os 27 países do bloco, além de Noruega, Islândia e Canadá.

"Mulheres brasileiras em Portugal sofrem com a discriminação e têm dificuldade para alugar apartamento", foi manchete do UOL na terça, citando um estudo do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (Acidi), realizado em julho de 2007.

Nessa pesquisa, que ouviu 400 brasileiros que vivem em Portugal, 45,3% responderam ter visto "bastantes" casos de discriminação de parte dos portugueses em relação aos brasileiros.

Considerando também os entrevistados que viram "alguns" casos de discriminação, esse número sobe para 71,9% dos consultados.

Rui Pereira reforçou, entretanto, que a imigração legal é favorecida em Portugal, ao mesmo tempo em que é combatida a imigração ilegal, normalmente associada, segundo ele, a fenômenos sociais gravíssimos, como tráfico de pessoas.

O ministro disse ainda que foi aprovada no ano passado a nova lei de imigração portuguesa, que prevê a possibilidade de regularização de imigrantes, desde que tenham entrado legalmente no país, possuam contrato de trabalho e contribuam para a Segurança Social.

Rui Pereira afirmou que, desde outubro de 2007, foram deferidos mais de 7 mil pedidos de regularização de imigrantes em Portugal, dos quais cerca de 5 mil foram de brasileiros.

As autoridades portuguesas estimam que o número de imigrantes brasileiros ilegais em Portugal seja equivalente aos 70 mil que já têm situação regularizada.

terça-feira, maio 4

Mitos Sobre Imigração

Seja na América, seja no espaço Schengen ou em qualquer parte deste planeta globlizado, o olhar lançado sobre os imigrantes reflecte quase sempre os mesmos mitos e pré-conceitos. Neste momento em que a América e o mundo está de olho na nova Lei de Imigração do Arizona(EUA), postamos aqui um texto de reflexão, de DORIS MEISSNER, pesquisadora sénior do Instituto de Políticas para a Imigração, publicado no Washington Post e O Estado de São Paulo (tradução de Augusto Calil)


Muro americano, na fronteira com o México, é símbolo da intolerância

Americanos alimentam mitos sobre imigração
Argumentos contra os imigrantes são sempre os mesmos, mas uma análise mais profunda leva à conclusão de que quase nunca eles são verdadeiros

Apesar de os EUA serem um país de imigrantes - ou talvez justamente por causa disto -a imigração continua a ser um dos tópicos mais controvertidos na sociedade americana. No Arizona, a nova lei que permite à polícia prender indivíduos incapazes de apresentar documentos comprovando que estão legalmente no país deu início a uma nova rodada de asperezas. Mas, como no passado, boa parte do debate tem o mito como base. Vejamos alguns deles.

1) Os imigrantes roubam os empregos dos trabalhadores americanos.

Apesar de corresponderem a 12,5% da população americana, os imigrantes compõem cerca de 15% da força de trabalho. Essa desproporção deve-se principalmente ao fato de a população dos EUA estar envelhecendo: os imigrantes e seus filhos foram responsáveis por 58% do crescimento populacional dos EUA desde 1980. É provável que isso não mude no curto prazo. A baixa natalidade nos EUA e a iminente aposentadoria da geração do pós-guerra significam que a imigração deve se tornar nas próximas décadas a única fonte de crescimento naquilo que chamamos de força de trabalho "em idade ideal" - entre 25 e 55 anos. Quando um número recorde de aposentados começar a receber pensões, jovens trabalhadores imigrantes pagarão impostos, relaxando um pouco as pressões financeiras sobre o sistema.

Os imigrantes costumam estar concentrados nas ocupações de baixa especialização que complementam - em vez de concorrer com - as ocupações exercidas pelos trabalhadores nativos. E os estrangeiros que preenchem os postos de trabalho de menor remuneração costumam ser empregados no regime "contratado primeiro, demitido primeiro". Como resultado, verifica-se entre os imigrantes uma taxa de emprego superior à verificada entre os americanos natos em momentos de prosperidade, mas eles são o principal alvo das demissões nos momentos de crise.

É verdade que um influxo de novos trabalhadores provoca uma redução nos salários, mas a imigração também estimula o crescimento por meio da criação de novos consumidores, empreendedores e investidores. Como resultado desse crescimento, os economistas estimam que o salário dos americanos seja um pouco maior do que seria na ausência da imigração. Americanos desprovidos de diploma do ensino médio sofrem com a redução dos salários por causa da concorrência dos imigrantes, mas estas perdas são modestas, pouco superiores a 1%.

2) A imigração está no seu momento de maior intensidade e a maioria dos novos imigrantes entra ilegalmente.

O momento de imigração mais intensa ocorreu há mais de um século, em 1890, quando os imigrantes correspondiam a 14,8% da população dos EUA. Atualmente, dois terços dos imigrantes estão no país legalmente, seja como cidadãos naturalizados ou como residentes permanentes regularizados pela lei, mais conhecidos como portadores de "green card". Dentre os aproximadamente 10,8 milhões de imigrantes que estão ilegalmente no país, cerca de 40% chegaram legalmente aos EUA, mas permaneceram além do prazo estipulado em seus vistos.

México. Vale destacar que, apesar de a população de imigrantes não autorizados incluir muito mais pessoas vindas do México do que de qualquer outro país, as apreensões realizadas na fronteira entre EUA e México registraram queda de mais de 50% nos últimos quatro anos, enquanto o crescimento da população ilegal - que por mais de uma década aumentou ao ritmo de aproximadamente 500 mil novos habitantes por ano - foi interrompido.

3) Diferentemente das ondas imigratórias passadas, os imigrantes não estão se incorporando à cultura local.

A mesma acusação foi feita a praticamente todas as ondas anteriores de imigrantes, incluindo o grande número de alemães, irlandeses e italianos que chegaram aos EUA no século 19 e início do 20. Como antes, são necessárias hoje uma ou duas gerações para a integração dos imigrantes. O aprendizado do inglês é um dos principais fatores no processo; outro deles é a educação e a mobilidade social ascendente de seus filhos.

Em relação ao primeiro fator, a consistente busca dos imigrantes atuais pelo aprendizado do inglês ocorre numa escala tal que os programas educacionais para adultos são incapazes de atender à demanda. Em relação ao segundo fator, a lei Nenhuma Criança Deixada Para Trás desempenhou um papel fundamental na educação dos filhos de imigrantes ao responsabilizar as escolas pelo ensino do inglês.

4) O combate às tentativas de ultrapassar a fronteira aumentará a segurança dos EUA.

A tarefa de proteger as fronteiras dos EUA é imensa, englobando 12 mil km de divisas terrestres, 20 mil km de fronteiras marítimas e uma vasta rede de portos, aeroportos, portas de entrada com México e Canadá e consulados emissores de visto no exterior. Desde o 11 de Setembro, fortalecemos dramaticamente nossas fronteiras por meio do uso de leitura biométrica e uma maior cooperação internacional. A Patrulha da Fronteira quase dobrou de tamanho nos últimos cinco anos, com mais de 20 mil agentes. E a cooperação com o governo mexicano melhorou significativamente.

Os experientes policiais de fronteira com quem conversei sugerem que, se fossem emitidos vistos em número suficiente para atender a demanda da economia por novos trabalhadores, os agentes ficariam livres para concentrar-se na missão de proteger o país de indivíduos perigosos e suas atividades, como tráfico de drogas, contrabando e violência dos cartéis.

5) A imigração não pode ser reformada num ano eleitoral.

A política envolvida nas questões imigratórias pode afastar os legisladores, especialmente com a aproximação das eleições. O resultado disso é que o Congresso não costuma atualizar a legislação imigratória, fazendo-o apenas com relutância. Entretanto, todas as leis de imigração significativas das últimas décadas foram aprovadas em anos de eleição, com frequência no último minuto possível.

Tentativas legislativas de promover mudanças urgentemente necessárias perderam-se no Congresso em 2005 e no Senado em 2006 e 2007, e o Congresso atual depara-se com uma considerável lista de tarefas ainda por fazer. Mas excluir a possibilidade de uma reforma na imigração - seja porque o Congresso tem outras prioridades ou porque estamos em ano de eleição - seria um grande erro.

A proposta de legislação para a imigração apresentada na semana passada pelo senador democrata Charles Summer, de Nova York, e seus colegas, juntamente com a indignação provocada pela lei do Arizona, pode ajudar a convencer os legisladores de que o melhor momento para uma solução é o atual.
 
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